segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uruguai épico


Na última sexta, quando embarquei no PLUNA rumo a Buenos Aires, mal sabia que presenciaria uma das coisas mais emocionantes em relação ao esporte que vi.

Eu tinha que fazer uma conexão no aeroporto de Montevidéu, mas minha cabeça estava tão a mil com minhas preocupações e ainda a desclassificação do Brasil, que nem tinha me ligado que era na hora do jogo do Uruguai.

Na hora que o avião chega em Montevidéu, o piloto dá a informação de que o jogo Uruguai X Gana estava empatado em 1 a 1 e muita gente comemorou feliz. Alguns passageiros desceram e os que iam pra Argentina, como eu, deveria permanecer, já que no final das contas era a mesma aeronave que faria esse trajeto e não havia necessidade de desembarcar.

Todo o pessoal da Pluna que trabalha no aeroporto estava com a camisa oficial da seleção uruguaia, da Puma mesmo. Nada de pirataria. Eles também tinham uma bandeira estilizada pintada nas bochechas, homens e mulheres. O cara que entrou para limpar o avião estava assim e o cara que ajudava as pessoas a desembarcar também, fora outras pessoas dentro do aeroporto que depois iria ver.

Começava a prorrogação e logo entraram outros passageiros, a grande maioria de uruguaios. Alguns vestindo a camiseta celeste, crianças com cachecol do país, um outro cara amarrado na bandeira como um super-homem dos pampas.

Era impossível captar sinal de internet dentro do avião e dois passageiros que ouviam rádio davam os updates pro resto do pessoal da aeronave. O Bombardier começava a taxear a pista rumo a Buenos Aires e a prorrogação rolava solta. Um uruguaio sentado do meu lado, ouvia o jogo de olho fechado torcendo de todas as maneiras e dizendo que não podia acreditar que tinha marcado seu vôo bem pra essa hora.

O Pluna se preparava pra decolar quando notamos que ele mudou de direção, de volta pro terminal do aeroporto. O capitão avisa que tínhamos que esperar já que o Aeroparque de Buenos Aires estava fechado para pousos e decolagens. Nunca vi um atraso de avião ser tão comemorado!

Parados lá na inércia da espera um dos passageiros diz "Penâlti pra Gana", bem no último minuto da prorrogação. Ouço um lamento de umas 70 pessoas, mas que logo é transformado numa euforia enorme quando gritam "Ele errou". As pessoas começavam a gritar, muitos já se emocionavam e a criançada fazia a festa. Quem não era uruguaio naquele avião já estava contagiado pela febre celeste.

Veio a cobrança dos pênaltis e a cada cobrança o senhor ia dizendo "Fez" ou "errou", causando reações em todos passageiros, que gritavam e hinchaban por la Celeste. Gana tinha perdido dois pênaltis e o Uruguai um, e davaa pra perceber que o clima de esperança subia e as pessoas não podiam acreditar no que estava acontecendo. Até eu que não sou de interagir muito já estava gritando insanamente com outros três uruguaios.

Na hora do último pênalti do Uruguai, aquele que se fosse convertido valeria a classificação, veio uma maior surpresa. O piloto, que obviamente também estava na torcida pois a companhia aérea é uruguaia, ligou o microfone que ele usa pra falar com os passageiros num rádio AM que transmitia o jogo.

Todos ali começaram a escutar aquela voz de locutor de rádio nos alto-falantes do avião. Locução de rádio que num jogo de campeonato normal já é emocionante, ganha proporções épicas no jogo mais importante do país em 40 anos. Foi ali que percebi o quanto aquilo era importante para os uruguaios. A locução dizia tudo, emocionada, falando de como aquilo era histórico e de como toda a pequena nação dos pampas estava dentro daquele campo na África do Sul.

El Loco Abreu cobrou o pênalti e fez o gol. Todo os passageiros foram ao delírio. Era uma alegria daquelas que as pessoas não acreditam no que está acontecendo e acabam chorando e se abraçando. Logo um grito de "Soooy celeste, celeste yo soy" invade o avião e todos saem batucando. Olho pela janelinha do avião e vejo aquelas caras que ficam com aquela luzinha orientando o avião ajoelhados vibrando, enquanto outros dois se abraçam loucamente. O vôo ainda demoraria mais, seríamos levado de volta para a sala de embarque mas ninguém reclamaria.

Eu ali fiquei imaginando na grande ironia de estar em 2010, rodeado de wireless, iphone e blackberrys, mas ter que escutar aquela classificação num rádio, da mesma maneira que aquele país escutou a sua maior conquista no futebol em 1950, o famigerado Maracanazzo.

18 comentários:

Anônimo disse...

La mejor historia y crónica que leí en esta Copa.

En serio te felicito

Y qué culo tuviste de estar en ese lugar y en ese momento!!!

Leo Carioca

Túlio disse...

Valeu, Leo.

Escrevi o texto na pressa, mal formulado e cheio de informação. Mas enfim, realmente foi sensacional estar ali naquele momento.

Helena disse...

Que massa! Imagino a euforia hahaha

Manoel Magalhães disse...

o texto tá sensacional, cara! parabéns mesmo.

Julita Mara disse...

Li o seu texto e fiquei emocionada!!!
Vou torcer para o Uruguai!!!

Roberto Mathia disse...

Gostei muito deste depoimento, isso é que é papo de boleiro,de quem gosta da emoção que o futebol patrocina,a gente se despoja de patriotismo e simplesmente admira.

Otávio Pacheco disse...

Excelente texto, deu pra sentir a emoção!

Anderson Moreira disse...

Cara, show de bola o texto!! Nem parece o "rude", hahahaha.

Túlio disse...

Para quem não sabe, "Rude" era meu apelido no início da faculdade.

Grande Anderson "Vanhoni", os RUDES também choram!

Tiago Dutra disse...

Que texto MASSA Tuts! Quase chorei cara!

André Takeda disse...

Genial, Tulio. Deu até vontade de torcer pela Celeste. Mas eu me recuso a torcer por eles. Abs!

Fernanda disse...

emocionei, amigo! queria ver como eles reagiram qdo o Suarez usou a MANO DE DIOS... ;~

Eduardo Rech disse...

Texto ótimo... emocionante!!

Juliana Bragança disse...

Até arrepiei!
tava torcendo pro urugaui, pena q eles acabaram de perder pra holanda!

van rodrigues disse...

haja corazón, amigo.

Marcelo Urânia disse...

massa demais! emocionante!

é o poder do futebol, amigo!

Túlio disse...

Gracias, amigos!

Realmente foi sensacional estar lá.

jair disse...

cara, parabéns pelo texto!!! e também por ter vivido esse belo momento da história celeste.

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