quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Extraño

Ando em crise com esse blog desde o momento que o criei. Ele não tem foco, não é sobre nada, não diz a que vem.

Abro o blogger e fico olhando para um quadrado em branco esperando minhas letras. Prometo que não vou escrever nada sobre mim, mas aí começo a digitar e no final do texto vejo que não consegui fugir disso. Na maioria das vezes apago tudo e deixo pra lá.

Estou a poucos dias de começar uma nova jornada, novamente numa cidade estranha, e ando pensando bastante em Buenos Aires e o que me fez sair de lá. Bateu saudade de alguns detalhes dessa cidade que tanto odiei e amei, algumas coisas frívolas e outras nem tanto. Cheguei a conclusão de que não era exatamente a vida de estrangeiro que mais me incomodava. O que me doía mesmo era a solidão que aquele lugar me causava. Solidão essa que por poucas vezes consegui vencer. Quando vencia, era alegria pura. No resto dos dias, era aquela convivência tediosa.

Acabei de ler um texto velho e genial do Fabiano Goldoni, postado na época no seu Café con Medialunas. É bem isso. Tem horas que também tenho saudades de sentir saudade do Brasil

Extrañamiento

No começo, a gente vivia com saudades de Porto Alegre, do Brasil e da Globo. Agora, depois de 3 anos morando em Buenos Aires, a gente já sente saudades de algumas coisas daqui quando passa mais de 4 dias no Brasil.

Tenho saudades das caminhadas em Palermo e Belgrano no fim de semana.

Saudades de comprar fruta na fruteira, carne no açougue e vinho bom e barato na vinoteca da esquina. Melhor que isso só fazer tudo isso no Zaffari.

Saudades de pedalar em San Isidro.

Saudades do cheese cake de Baileys do Fresh Market em Puerto Madero. Na verdade, a saudade não é especificamente desse cheese cake, nesse lugar, nesse bairro. O saudosismo que eu sinto é da possibilidade de ter isso próximo de mim caso seja atacado pelo desejo.

Saudades de ir em cinema de rua.

Saudades de passar meses e meses comprando roupa sem ter que entrar num shopping.

Saudades da Cristina Kirchner e do modo faca-na-bota dos argentinos discutirem política. A política argentina é um caminhão sem freio descendo morro a baixo. Todo mundo sabe que, cedo ou tarde, vamos bater em alguma coisa. E o que todo mundo espera é que seja em algo relativamente macio. Como sou um cara otimista e sempre de pensamento positivo, eu encaro esse aspecto da vida aqui como um esporte radical.

Saudade de poder ter ataques de mau humor e parecer normal para os outros.

Saudade de ter centenas de opções de peças teatrais e ignorar todas elas. Eu já comentei aqui que não gosto de ir ao teatro?

Saudade de caminhar na avenida Corrientes numa sexta à noite, ver todas aquelas luzes, aqueles cartazes de peças teatrais e pensar “Que bom que existe o cinema. Se não fosse essa invenção genial, eu teria que estar assistindo uma peça de teatro nesse momento.”

Saudade do paradoxo que é comentar com pessoas, que comem tripa de boi recheada de cocô, que eu como pizza com coração de galinha e ver elas fazerem cara de nojo.

Saudade de tomar cachaça de alambique pura, porque sou brasileiro. E não cachaceiro.

Saudade de ver os velhinhos caquéticos andando de fralda geriátrica na rua e pensar que, sim, existe vida mesmo quando você está com os dois pés na cova.

Saudade de ligar a TV no domingo e não escutar a voz do Faustão. Ô loco! Urra, meu!

Mas a saudade que eu mais gosto, a minha preferida, aquela que me faz salivar só de pensar, é a saudade de poder sentir saudades do Brasil. E digo isso com a mão no coração, olhando pro Cruzeiro do Sul e balbuciando as estrofes do Hino Nacional: cacete, como é bom ser brasileiro!

7 comentários:

Tiago Dutra disse...

Tuts, eu gosto muito do seu blog cara, exatamente por ele ser assim, caótico. Não adianta ir contra isso, é o que você é e á assim que ele fica bacana. Só pra completar, achei esse texto que você colou aí espetacular. Já guardei como favorito. Abraço!

Túlio disse...

Valeu, Vidal!

A-nah! disse...

Ay Tulinho, Tulinho, Tulinho... ¿quién nos entiende?

Túlio disse...

¿QUIEN?

Marcelo Urânia disse...

texto fudido mesmo, rapá.

Leo Vinhas disse...

Vem para cá, ou vai para PoA?

Túlio disse...

Indo pra P. Alegre, sr!

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